sábado, 26 de dezembro de 2009
Pedaço do Capítulo VI Nega Marinalva
"No meio da sua face redonda destaca-se o nariz largo com narinas imensas, tem lábios fartos donos de uma gargalhada extravagante e entre seus dois dentes frontais dista o espaço necessário para lembrança de um outro. A pele sempre lustrosa é negra como carvão virgem, Nega Marinalva, Mamá ou Mãe Nega tem pelo seu povo um carinho imenso, uma fé exacerbada de que a força da sua gente e somente nela se encontra o real valor da vida. No porto da cidade é conhecida pela boa mão na cozinha, filha de escravos a Mãe Nega atribuía sua destreza culinária às entidades do Candomblé, diz ela que “Alguém tem de cozinhar manjares aos Deuses”, e sem duvidas seria nas mãos de Mamá que isso aconteceria: Feijoada, Acarajé e vatapá, a tudo isso sua pele preta já cheirava. No fim do dia ela toma seu rumo sobre o lombo de um jegue velho como é de costume. O jegue Venâncio. Lentamente vai subindo os montes por entre as matas escuras até chegar a estrada que leva à Belém. Particularmente, gostava de fazer essa viagem lentamente, não por uma questão fisiológica ou por limitações da sua condução, mas para sentir a cada curva o cheiro das folhas prontas para dormir. "
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Natal
Natal?Já não me importa! Desta fábula o meu credo é quase nulo, o meu saco é muito pouco e a fome dos que morrem lá fora é bem mais táctil do que o amor somente elucidado nessa ultima estação. Meus olhos crus que já não enxergam em suas luzes coloridas a mítica que envolvia os meus sete anos, por hora, preocupam-se em desviar das laminas afiadas que o bom Noel pôs nas mãos daquela criança frente à sinaleira. “Passa a porra do celular desgraça ou então você se fode em minha mão”, e eu que acreditava ter morrido apenas em mim aquele que já nasce morto: O espírito – natalino. Mas é assim, trocamos alguns presentes, acreditamos num mundo melhor, ficamos sentados pedindo a deus, mas acredite, ele é muito ocupado e eu (você) um tanto tolo.
Que deus ilumine seu natal!
Que deus ilumine seu natal!
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Final do Capítulo V
Antes que todos pensem que eles viveram felizes para sempre, adianto-lhes: Não!Haveria de ser entre eles a primeira transa sem fins comerciais, mas naquela noite Joana Dos Prazeres, ou Jô como prefiro chamá-la, descobriria o fel que a vida guardava para ela. Sem muita cerimônia, ambos se compuseram e despediram-se. Ele apanhou suas vestes encardidas do chão, amarrou o sinto e se embrenhou pela mata. De outro lado, Jô, embriagada pelo fato de ter provado uma grande dose desta peçonha ainda desconhecida pelo seu pétreo coração, levou na beira do rio os mais longos minutos a pensar prazerosamente em um homem que não o seu saudoso pai. Pôs-se no caminho da casa de relacionamento encravada na beira da estrada rumo a Belém. Na noite que se afirmava poucas casas se viam dos dois lados da rua escura e assim se guiava pelas fracas luzes fornecidas por lampiões a querosene que por elas vazavam, ou então os sons reverberantes dos atabaques dos terreiros de candomblés.
Moreira
Moreira
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Capítulo V
Ela respira com certa dificuldade, ofegante como se houvesse fugido dum faminto predador tenta gritar inutilmente por socorro, mas sua voz é sucumbida entre os gemidos. Tem as garras afiadas como as de um felino, tem apetite e instintos animais que me fazem revirar os olhos de prazer quando libera em minha pele, em toda ela, a lamina lânguida que é a sua língua a desbravar todo o meu corpo. O bico dos seus seios, eretos, afogam-se em meus lábios que se perdem – por hora – em seu pescoço, em suas pernas e em toda a sua carne perfumada pelo mato que cresce no leito do rio.Posso sentir Dos Prazeres como se fosse a mim mesmo, no calor febril do seu ventre vi nossas peles se fundirem, se desejarem cada vez mais na cadencia de nossos quadris até se perpetuarem, até a comunhão inevitável de nossos sentidos, até que fosse veloz demais para agüentarmos, até o gozo mutuo, até a morte suspensa na brisa e a vida caindo como chumbo ao chão.
*****
Perdoe-me caro leitor, quem vos fala agora é o criador, não o seu deus pregado numa cruz lembrando uma suposta rendição por sua cria, mas o que edifica a estória que há alguns dias vem se revelando sobre essas folhas não tácteis, permitindo aos personagens o traço final sobre todos os fatos aqui elucidados. É notório que falta um pedaço desta estória, e como nosso caro personagem, a cobaia desse Deus aqui presente, ele se precipitou em narrar apenas a lancinante transa que tivera com a Dos Prazeres, pausei para que pudesse explica-los como isso acontecera e seguir uma idéia parcialmente cronológica de como tudo se deu:
As luzes que já buscavam por detrás da mata espessa um leito sereno para adormecer, desapareciam e entregavam ao anoitecer as chaves dum novo dia. O homem que até agora não foi apresentado devidamente recebera a alcunha de Emanuel, nascido e criado na cidade de Cachoeira, as margens do rio Paraguaçu, ele nunca vira o mar, mas sabia muito bem o sabor que ele tinha: gosto de vida! Pusera-se a caminhar pelo itinerário rotineiro dos seus dias, o porto donde atracavam os grandes saveiros repletos de mantimentos, panelas de argila, sacos de farinha. Porem interrompido por um arrepio mistificado por suas crenças religiosas colocou-se no caminho da volta e seguiu a imagem daquela chaminé apontando para o céu, ali estava o galpão abandonado do velho moinho e a recente lembrança da morena mais bela entre todas, Dos Prazeres. As paredes erguidas já não possuíam a presença daquela mulher, resolvera então observar as imediações até chegar ao rio e ver o corpo nu e pálido de Dos Prazeres à margem. Andou, correu, voou até Jô e a deitou em seus braços, pediu a Janaina que devolvesse àquela mulher o seu sopro de vida, ensaiou um tímido pranto pelas quinas dos olhos sem saber muito menos porque isso acontecia e então a beijou a boca freneticamente, amaciou o seu peito, a ressuscitou. Atordoada, acordou nos braços viris e morenos daquele homem, de um ser sem nome que pusera a vida entre os seus seios novamente. Creio que agora poderemos seguir a nossa odisséia e permitir ao personagem e a vocês meus caros leitores a exata superposição das idéias que por aqui vêem acontecendo. Continuemos então donde terminamos - O tempo é agora!
*****
Moreira.
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Perdoe-me caro leitor, quem vos fala agora é o criador, não o seu deus pregado numa cruz lembrando uma suposta rendição por sua cria, mas o que edifica a estória que há alguns dias vem se revelando sobre essas folhas não tácteis, permitindo aos personagens o traço final sobre todos os fatos aqui elucidados. É notório que falta um pedaço desta estória, e como nosso caro personagem, a cobaia desse Deus aqui presente, ele se precipitou em narrar apenas a lancinante transa que tivera com a Dos Prazeres, pausei para que pudesse explica-los como isso acontecera e seguir uma idéia parcialmente cronológica de como tudo se deu:
As luzes que já buscavam por detrás da mata espessa um leito sereno para adormecer, desapareciam e entregavam ao anoitecer as chaves dum novo dia. O homem que até agora não foi apresentado devidamente recebera a alcunha de Emanuel, nascido e criado na cidade de Cachoeira, as margens do rio Paraguaçu, ele nunca vira o mar, mas sabia muito bem o sabor que ele tinha: gosto de vida! Pusera-se a caminhar pelo itinerário rotineiro dos seus dias, o porto donde atracavam os grandes saveiros repletos de mantimentos, panelas de argila, sacos de farinha. Porem interrompido por um arrepio mistificado por suas crenças religiosas colocou-se no caminho da volta e seguiu a imagem daquela chaminé apontando para o céu, ali estava o galpão abandonado do velho moinho e a recente lembrança da morena mais bela entre todas, Dos Prazeres. As paredes erguidas já não possuíam a presença daquela mulher, resolvera então observar as imediações até chegar ao rio e ver o corpo nu e pálido de Dos Prazeres à margem. Andou, correu, voou até Jô e a deitou em seus braços, pediu a Janaina que devolvesse àquela mulher o seu sopro de vida, ensaiou um tímido pranto pelas quinas dos olhos sem saber muito menos porque isso acontecia e então a beijou a boca freneticamente, amaciou o seu peito, a ressuscitou. Atordoada, acordou nos braços viris e morenos daquele homem, de um ser sem nome que pusera a vida entre os seus seios novamente. Creio que agora poderemos seguir a nossa odisséia e permitir ao personagem e a vocês meus caros leitores a exata superposição das idéias que por aqui vêem acontecendo. Continuemos então donde terminamos - O tempo é agora!
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Moreira.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Capítulo IV (Por Dos Prazeres)
Está escuro, sinto frio e não é possível notar se quer um palmo a minha frente. Ouço passos e as madeiras do assoalho rangem com uma freqüência assustadora, não sei bem onde estou, mas o perfume que se sente leva-me a um sentimento que por agora não consigo decifrar, mas já esteve presente em mim. Percebo pela variedade de vozes, que vive por ali uma família de umas quatro a cinco pessoas, a mais grave se destaca dentre todas, é calma e melodiosa a ponto de entregar-me a uma paz sem precedentes. Segui até o feixe que se espreguiçava onde supostamente erguia-se a porta e a manuseei até achá-la e abri-la. É inacreditável, mas aquela menina “Macabeia” sentada e com a cabeça na bandeja da mesa é quase uma fotografia, um resgate da Joana ainda Silva d’outrora. Usa uns trapos desbotados e os cabelos embaraçados, rebelam-se, destacam-se dentre toda a imagem. Deve ter uns dez anos de idade e olhos perdidos como quem busca algo, uma procura incessante por alguém que não vem. Na escuridão do corredor alguém adentra.
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É como tomar um choque, um punhal pelas costas, cicuta pela goela, é uma queda sem tamanho e sem fim. Meus olhos berravam o choro de anos, décadas de omissão daquela imagem, talvez para não sujar o lado mais doce de minha vida, talvez para não acabar com as únicas lembranças de vida que me restavam. A voz e a viola desentoada pertenciam àquele que me pusera no mundo, logo atrás dele dançavam alegremente os meus dois irmãos, desengonçados faziam a menina encher-se de risos, um riso inocente e desdentado dos meus nove ou dez anos. Foi como tomar um choque, um punhal pelas costas, cicuta pela goela, é uma queda sem tamanho. Está escuro, sinto frio e não é possível notar se quer um palmo a minha frente.
*****
Atordoada, acordei nos braços viris e morenos daquele homem, de um ser sem nome que me pusera a vida entre os seios novamente.
Moreira.
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É como tomar um choque, um punhal pelas costas, cicuta pela goela, é uma queda sem tamanho e sem fim. Meus olhos berravam o choro de anos, décadas de omissão daquela imagem, talvez para não sujar o lado mais doce de minha vida, talvez para não acabar com as únicas lembranças de vida que me restavam. A voz e a viola desentoada pertenciam àquele que me pusera no mundo, logo atrás dele dançavam alegremente os meus dois irmãos, desengonçados faziam a menina encher-se de risos, um riso inocente e desdentado dos meus nove ou dez anos. Foi como tomar um choque, um punhal pelas costas, cicuta pela goela, é uma queda sem tamanho. Está escuro, sinto frio e não é possível notar se quer um palmo a minha frente.
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Atordoada, acordei nos braços viris e morenos daquele homem, de um ser sem nome que me pusera a vida entre os seios novamente.
Moreira.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Capítulo III (Por Dos Prazeres)
No fundo eu sabia que aquele homem não tinha em seu sangue brasões ou dono era de feudos intermináveis sobre o solo do recôncavo. Por algo que se perdeu por entre seus olhos negros e fundos, foi que me deixei embarcar aos confins de um sentimento não mui bem vindo nesta pedra que afunda em meu peito. Não me deixou a lembrança do seu nome, mas seus traços e músculos ficaram impregnados na mente confusa a que me permiti e me lancei sem tantos receios. O prenuncio crepuscular lançou-nos o dourado, era possível notar seus músculos bem definidos mesmo léguas distantes. Alto, moreno, cabelos ondulados que beiravam os ombros e grandes, fundos olhos negros como a noite. Deixou-me à solidão do velho moinho esquecido pelo tempo donde supostamente conheci um sentimento avassalador, me tomei por uma vontade louca de correr aos seus braços, pedir-lhe o amor mais puro e devolve-lo cada um daqueles dobrões d’ouro que usara para financiar o meu sexo. Mas fui sensata, amarguei silenciosamente cada palavra não dita, pois sabia que nenhum homem seria capaz de amar uma mulher como eu, mundana, tão suja e rodada na ânsia sexual de tantos outros homens. Dentro dos minutos restantes daquele cigarro
- absorta - relembrei todos os toques que aquele homem me proporcionara, a sua língua provocando arrepios por todo o meu corpo, o seu pulsar invadindo-me, completando, penetrando minha alma até me deixar perdida, a parte dos meus sentidos. Falta de ar. Por detrás do velho galpão um córrego de águas límpidas beija a terra e é possível notar como o verde ao seu redor é bem mais intenso, arvores frondosas se perfilam à sua margem e é por ali também que os animais saciam a sua sede. Tirei o que ainda me restava das roupas tão gastas e puídas e banhei-me em suas águas cristalinas, despi de todos os pensamentos e lembranças más a minha alma quando imersa tentava ouvir os cantos de Janaina, mas seus encantos são para poucos, são para os homens que tanto te querem bem. Roxa. Aquilo não fora uma tentativa de suicídio, muito menos um quebranto da Mãe das águas doces, não sei se apaguei, não sei o que fiz, mas lembro da imagem daqueles fortes braços agarrando os meus cabelos e me puxando para o leito do rio. Ele beijava a minha boca desesperadamente - eu não entendia -, mas algo me puxava para o fundo de mim aonde há treva, donde o breu reside e continuava a se perpetuar dês do após dos meus nove anos.
Moreira.
- absorta - relembrei todos os toques que aquele homem me proporcionara, a sua língua provocando arrepios por todo o meu corpo, o seu pulsar invadindo-me, completando, penetrando minha alma até me deixar perdida, a parte dos meus sentidos. Falta de ar. Por detrás do velho galpão um córrego de águas límpidas beija a terra e é possível notar como o verde ao seu redor é bem mais intenso, arvores frondosas se perfilam à sua margem e é por ali também que os animais saciam a sua sede. Tirei o que ainda me restava das roupas tão gastas e puídas e banhei-me em suas águas cristalinas, despi de todos os pensamentos e lembranças más a minha alma quando imersa tentava ouvir os cantos de Janaina, mas seus encantos são para poucos, são para os homens que tanto te querem bem. Roxa. Aquilo não fora uma tentativa de suicídio, muito menos um quebranto da Mãe das águas doces, não sei se apaguei, não sei o que fiz, mas lembro da imagem daqueles fortes braços agarrando os meus cabelos e me puxando para o leito do rio. Ele beijava a minha boca desesperadamente - eu não entendia -, mas algo me puxava para o fundo de mim aonde há treva, donde o breu reside e continuava a se perpetuar dês do após dos meus nove anos.
Moreira.
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